sábado, 5 de agosto de 2017

Mulher Maravilha: Quase Lá, DC. Quase.



Por Davi Paiva

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!!!

A ideia do filme foi muito boa. Diferente da “concorrente”, a DC resolveu criar poucos filmes explicando a origem dos seus super-heróis antes de lançar o grande filme com o seu grupo já formado. E para isso, lançou o primeiro filme discutível de seu universo cinematográfico (“O Homem de Aço”, em 2013), o segundo que gerou muita polêmica por sua baixa nota no Rotten Tomatoes (“Batman vs. Superman”, com crítica aqui no blog, em 2016, com 27% de aprovação na crítica. Para vocês terem ideia, “Capitão América – Guerra Civil”, também com crítica no blog, lançado no mesmo ano, teve 90% de aprovação) e um terceiro que conseguiu ir ainda mais fundo no poço (“Esquadrão Suicida”, que também tem crítica no blog, de 2016, com 27% de aprovação).

O filme da Mulher Maravilha veio com uma carga enorme de responsabilidades: trabalhar a representatividade feminina, salvar o universo cinematográfico da DC, tapar uns buracos no roteiro dos filmes anteriores e ainda lidar com boatos de ex-funcionários. Realmente, não foi nada fácil.

Assisti ao filme no bom e velho Shopping Center 3 (me deem ingressos grátis!) e o que tenho a dizer é o seguinte:

Escolha de elenco: em meu artigo sobre BvS, confesso que peguei pesado classificando a Gal Gadot como uma atriz que levava muquetadas do Apocalypse e fazia expressões sexy como se estivesse em um filme erótico. Ela tem carisma, mas infelizmente eu a considero magra demais para o papel (no filme, há amazonas que se impõem pelo tamanho e musculatura). E sua voz esganiçada em momentos tensos (como na cena da destruição do vilarejo) me faz lembrar a Jennifer Lawrence em “Jogos Vorazes”.

De resto, admito que Chris Pine foi uma escolha excelente por ser um ator carismático e que atua como um coadjuvante que não se torna maior que o protagonista.

Além disso, Danny Huston (general Ludendorff / falso Ares) David Thewlis (Patrick Morgan / verdadeiro Ares) são muito bons em nos vender uma imagem para entregar outra no final.


A Mulher Maravilha é guerreira mesmo, hein? Conseguiu dançar com uma espada desembainhada se esfregando em suas costas...


Roteiro: o filme já começa com uma consertada em BvS, explicando que a foto procurada por Diana realmente existia e não era só um arquivo em Jpeg. Ok.

Outros dois acertos do filme: usar uma guerra diferente (a maioria dos filmes norte-americanos são na Segunda Guerra) e fazer com que tudo fosse contado em flashback. Ok.

Se eu estou dando tantos pontos a favor, vocês devem estar se perguntando: por que o título deste artigo diz “quase lá?”.

O filme da Mulher Maravilha possui algumas coisas muito forçadas para gerar a sua trama, que a meu ver, são:

• Diana ser a criança mais mal cuidada do mundo, quase morrendo no começo do filme em uma queda (será que a mãe dela nunca pensou em deixar uma babá ao lado dela?);

• O diário de anotações da Dra. Veneno ser deixado a Deus dará em cima de uma mesa só faltando ter um bilhete escrito “pegue e corra!”;

• A ilha de Temiscira ser um local muito fácil de ser alcançado: basta ir de navio ou avião na direção certa que qualquer um atravessa a barreira cuja única função deve ser tornar o local invisível;

• Trevor sobreviver milagrosamente em meio a um confronto onde os sexos dos adversários eram a forma mais fácil de identificar inimigos;

• A espada “matadora de deuses” ser muito mal protegida.

Entre outras coisas, que vou abordar em tópicos mais específicos.

Antes de encerrar este, só queria lembrar que o filme vem com um diferencial feminista de dar espaço para mulheres de personalidades fortes... mas peca por colocar um diálogo onde Diana diz que homens não prestam para dar prazer (baita oportunidade e resolvem meter uma misandria? Fala sério...).

Uso de personagens: acredito que esse filme tenha seguido a mesma fórmula do primeiro filme do Capitão América, onde o Comando Selvagem não tem nenhum destaque na trama e só devemos prestar atenção em Steve Rogers e Bucky. No caso da Mulher Maravilha, Diana e Trevor merecem todo o destaque.

Infelizmente, se essa era a intenção... por que dar tanto tempo de tela para os outros integrantes do “Esquadrão Mulher Maravilha”?

Ficamos sabendo o background de cada um e a sua relação com Diana. Isso foi bom. Um indígena norte-americano vendedor de armas que atua como um segundo mentor da Mulher Maravilha (tirando o cargo de Trevor e deixando mais como arauto-aliado), um poliglota e mestre dos disfarces precisando do apoio moral de Diana para voltar a correr atrás do seu sonho de ser ator... e o escocês sniper, amargurado pela quantidade de pessoas que matou, que perde a chance de atirar quando Diana precisou da ajuda dele, levou sermão e no final, deu tiros que até o Steve Trevor estava acertando. Pelo visto, alguém aí precisa frequentar a Escola Allan Quatermain de atiradores de elite...


Esse cara conseguiu ser mais inútil que o Batman quando o Apocalypse apareceu. Parabéns, Charlie!

Por último, mas não menos importante, espero que a Dra. Veneno volte nos próximos filmes e não tenha sido usada apenas como cortina de fumaça para desviar a atenção do público tanto pela questão do falso Ares quanto do verdadeiro Ares.

Cenas de ação: seriam boas se não fossem três coisas: o CG que transformou Diana em uma Barbie, as refilmagens colocando-a como se fosse uma praticante de cooper na cena da “terra de ninguém” e o terceiro fator, abordado no próximo tópico...

Direção: Patty Jenkins pode ter sido cotada para trabalhar justamente a imagem de uma super-heroína sem apelar para ângulos de câmera que exaltem uma sensualidade ou coisas do tipo.

Por outro lado, aqui entra o terceiro fator comentado anteriormente, que a meu ver, tem mais a ver com uma característica da DC/Warner do que da própria diretora: o excesso de câmeras lentas.

Entendo que tal recurso sirva justamente para realçar a cena e o público poder reparar nos detalhes que não poderia ver se estivesse em velocidade normal. O problema é que usaram TANTAS que não dá para dizer qual cena é mais importante. Como aprendi recentemente, quando um filme tem câmeras lentas para realçar todas as cenas gerando importâncias, todas são importantes. O que faz com que nenhuma seja importante ao mesmo tempo.

Cena da batalha final: sei que este tópico poderia fazer parte das “cenas de ação”, mas preferi deixa-lo a parte.

A ideia foi muito boa. De verdade. Diana sai na porrada com o falso Ares, que até então tinha se mostrado como um ser que poderia ser um grande desafio para ela. Daí ela o mata (cravando uma espada que não arranca nenhuma gota de sangue)... e ficamos com uma sensação de “só isso?” ao mesmo tempo que poucos podem deduzir que algo grande vai acontecer.

Eis que o verdadeiro Ares aparece, no melhor estilo “a mente maligna por trás de tudo”, quebrando não só a espada de Diana (e gerando a incógnita de como ela arrumou uma espada capaz de cortar o Apocalypse) que ela recuperou indo rapidinho ao telhado e voltando (falha na direção) como também a moral dela e bota pra quebrar com telecinésia e porrada... até dar a ela o tempo de se despedir de Trevor e uma câmera lenta antes da morte do amigo/crush da Mulher Maravilha... para finalmente despertar o poder dela, mudar a sua tática de combate que estava dando certo (?!), tomar uma surra e atirar um raio contra a filha de Zeus (?!?!).


Depois de ver o amado morrer e ser atingida por um raio, a filha de Zeus e matadora de deuses aprendeu que a humanidade merece ser salva... e se isolou por mais de 100 anos (?!)


Em suma, o primeiro filme solo da Mulher Maravilha está batendo recordes de bilheteria e sendo aclamado até por atores e produtores da Marvel, além de ser um marco nas questões de representatividade.

Entendo tudo isso? Sim.

Considero o filme uma grande obra? Não.

Estou exercendo o meu direito de não gostar? Sim.

Estou impedindo alguém de não gostar? Não.

Acredito que esse filme dentro do universo DC seja exatamente como foi a Mulher Maravilha na cena da “terra de ninguém”, onde todos estavam desesperados e ela apareceu para salvar o dia. Logo, esse filme não pode ser considerado o melhor. Só o menos ruim. É bem diferente.

Para maiores informações, leiam esse artigo. Gostei bastante dele por ter uma opinião sóbria e sensata de quem, creio que assim como eu, esperava mais de uma super-heroína de tamanha relevância.


Obrigado a todos(as).